Salinas da Margarida: velhos tempos, belos dias

Nos idos dos anos 50 minha mãe comprou uma casa em Salinas das Margaridas, no bairro do Araçá, ao lado da casa de D. Morenita, filha do escrivão Senhor Filhinho. Na época, era comum verem-se pessoas mariscando sarnambi (pequeno molusco, que se tornou popularmente conhecido na Bahia como “lambreta”) na beira da praia. Era muito divertido. Moradores e veranistas atolados na lama, de bumbum pra cima, catando o molusco para o almoço, ou comer como tira-gosto. Em outras oportunidades me dedicava a pescar papa-bouba (espécie de peixe comum, sem valor comercial), pegar siri com puçá, e caranguejo no mangue. Colher cajus no mato, próximo à Base Naval, era outro tipo de diversão. Bater papo com Everaldo, ex-noivo de Lalinha (amiga da família), que recomendava o banho de mar às primeiras horas da manhã, afirmando que este era um banho saudável, e afrodisíaco.
Tenho gratas recordações de Manoel Sabacu, Picy, D. Boneca, dos passeios marítimos dançantes nos navios da Navegação Baiana, das caminhadas à beira da praia, até o Camboriú, passando pela usina de onde se extraia o azeite de dendê e se realizava a purificação do sal. Relembro os bailes no único Clube da Cidade (a Sede), que naquela época era apenas Comarca de Itaparica. Relembro ainda das travessias a pé que fazíamos – quando a maré estava na vazante – até Conceição de Salinas, enfrentando atoleiros nos manguezais e os cascalhos que cortavam as plantas dos nossos pés. Tudo isso pelo espírito da aventura e para satisfação de nossos desejos e instintos juvenis.
Tenho saudades da Nininha, de seus pais – Dione e Florzinha – que tomavam conta de nossa casa. Da janela avistávamos a Barra do Paraguaçu, um recanto de clima agradabilíssimo muito visitado por turistas. Na época das cheias, quando as chuvas de verão provocavam o transbordamento do leito dos rios, despejando suas águas na Baía de Todos os Santos, touceiras de “baronesas” (vegetação aquática da região do Paraguaçu: plânctons) invadiam as praias de Salinas, dificultando os banhos de mar, a pescaria e o tráfego de pequenas embarcações, como jangadas e canoas. Muitas vezes, junto com as “baronesas” vinham cobras, e era necessário muito cuidado com a aproximação das touceiras para não sermos surpreendido com uma picada.
As ruas de Salinas não eram pavimentadas. Os terrenos arenosos, rodeados de palmeiras, onde predominavam os dendezeiros, serviam para compor uma paisagem pictórica. O cenário era propício para inspiração de artistas e poetas e também tirar fotografias. Salinas nos acolhia e nos proporcionava um bem-estar indescritível.
Os times de futebol visitantes, em confronto com os times da ilha, eram sempre derrotados. O único juiz designado para apitar os jogos era um sargento da Marinha, que servia na Base Naval, chamado Badeco, que dava sempre uma mãozinha ao time da casa. Certa vez, um time de Salvador, onde jogava meu primo José, que fora campeão juvenil pelo Vitória em 1951, foi derrotado por um gol de pênalti não existente, marcado pelo sargento que, ao ser questionado, se traiu afirmando: “foi pênalti e é gol, porque quem vai bater é o Careca…” Careca foi um dos jogadores que fazia parte do plantel de aspirantes do Bahia, conhecido como Juventude Transviada. Em 1957, quando o time principal excursionava pela Europa, venceu muitas partidas contra times titulares, inclusive o Benfica de Portugal, cujo goleiro era o Costa Pereira, em pleno Estádio da Fonte Nova. Velhos tempos, belos dias…
Certa vez, eu e o José fomos passar uma semana de férias em Salinas das Margaridas. Combinamos dar um passeio em Conceição de Salinas, uma localidade vizinha, onde se dizia ter muitas garotas bonitas e, de lá, irmos até a Barra do Paraguaçu. Para melhor desfrutar da paisagem paradisíaca, fomos a pé pela praia. As praias daquela região eram cercadas de manguezais. Havia caranguejos e guaiamuns (grande caranguejo de casco azul) em abundância, que eram apanhados com muita facilidade por pescadores, habitantes locais e turistas, quando a maré estava baixa. Neste dia, a maré estava na vazante. Iniciamos a travessia. Foi uma verdadeira façanha. Sob o lamaçal, muitos cascalhos e atoleiros. Isso poderia acabar definitivamente com o nosso passeio, por causa da existência de sumidouros próximos ao local da nossa travessia. Foi uma loucura! Mas que foi emocionante, isso foi… Não posso afirmar de quem partiu a idéia de fazer essa louca caminhada. Teria sido eu ou o José?… Agora, isso não importa. O fato é que enfrentamos o lamaçal e os cascalhos, que cortavam as solas dos nossos pés. Orientados por pescadores a andar sempre na direção indicada, atravessamos o manguezal com segurança.
Havia muitas casas de sapê na beira da praia. Coqueirais, dendezeiros, cajueiros, mangueiras e mandacarus compunham a paisagem local. Durante a nossa caminhada fomos saudados por alguns moradores e por um grupo de belas jovens em trajes de banho, que passaram por nós sorrindo e olhando pra trás, enquanto prosseguíamos na trajetória em direção à Barra do Paraguaçu.
O José estava decidido a encontrar a famosa Pedra Mole, uma atração para os casais de namorados, que ali faziam as suas inscrições e declarações de amor, gravadas na pedra. Ele ficou cerca de meia hora à procura de uma inscrição gravada dentro de um coração desenhado: “José, eu te amo” que teria sido escrita por sua namorada Zelita (hoje, sua mulher) há algum tempo atrás. Apesar do perigo de andar sobre as pedras, onde fortes ondas batiam levantando às alturas uma alva espuma, os casais de namorados estavam sempre dispostos a enfrentar as conseqüências para demonstrar o seu sentimento pela pessoa amada.
A tal Pedra tinha esse nome porque a sua composição calcária, a exemplo da pedra-sabão, permitia fazer desenhos e inscrições com certa facilidade. As ondas quebrando sobre as rochas se encarregavam de ampliar ainda mais as inscrições em buracos cada vez mais profundos. Com o passar dos anos essas inscrições seriam totalmente apagadas. Eu também não me lembro se o José chegou a encontrar a mensagem deixada pela sua namorada. No momento em que me deslocava para sair das pedras, fugindo de uma grande onda que quebrava sobre as rochas, levei um tombo, que provocou um pequeno corte na região abdominal, cuja cicatriz permaneceu durante muitos anos.
O nosso retorno foi outra aventura. Quando chegamos ao local onde deveríamos fazer a travessia de volta para Salinas, a maré estava alta e os pontos de referência para passar sobre a lama já estavam cobertos. E agora, como é que iríamos voltar!?… Acenamos para alguns pescadores que estavam numa canoa para nos orientar, mas eles não nos ouviram. Resolvemos enfrentar a situação e o vexame. Assim que iniciamos a travessia, guiados por Deus e pelo nosso próprio instinto de preservação, com a água à altura da cintura, ouvimos uns pescadores gritando para abandonarmos aquele trajeto e seguir por outro caminho mais seguro, andando sempre em linha reta, mirando uma poita (estaca de madeira fincada no fundo do mar, há dez metros da praia) vermelha até chegar do outro lado. Ufa! Foi um verdadeiro sufoco!…
Chegamos em casa cansados e estropiados. As solas dos pés estavam cheias de pequenos cortes, provocados por cascalhos. Corpo coberto de lama preta e muita fome. Fomos direto para o fundo do quintal, para tomar banho de cisterna (poço artesiano, cuja água salobra não se presta para beber), e depois pegar o almoço preparado pela D. Florzinha.
No quintal, um terreno arenoso, havia dois pés de abacate, um pé de cajá-umbu, um coqueiro-anão que dava coco o ano inteiro e vários pés de maracujá, cobrindo as cercas-vivas de mandacaru. Após o banho, fomos imediatamente para a mesa do almoço, onde já nos esperava uma suculenta moqueca de baiacu. O José hesitou quando viu o peixe, porque tinha conhecimento de que este pescado, para quem não sabe prepará-lo, pode provocar intoxicação alimentar e, até mesmo, levar à morte, em conseqüência da violenta intoxicação. Mas tudo deu certo, ninguém ficou intoxicado e ninguém morreu.
As férias chegaram ao fim. De volta para Salvador, levamos, além das sacolas com nossos pertences, dois sacos cheios de coco e de abacate, carregando no braço, sem ajuda de ninguém. Acordamos às 5 horas da manhã, para pegar a lancha das 7. Andamos a pé cerca de 1 quilômetro (distância que separava nossa casa do porto), pisando em coco de animais espalhados pelos caminhos de areia, e com muito receio de não pisar em cobras venenosas.
A lancha Albatroz já estava ancorada, aguardando o embarque dos passageiros. Eu e o José ficamos na parte superior da embarcação para apreciarmos a paisagem e respirar o ar salitrado da brisa marinha. O Sol começara a surgir no horizonte e o céu com poucas nuvens, nos proporcionou uma atmosfera agradável, trazendo-nos à alma profunda paz. O mar muito azul e perfeitamente calmo nos oferecia um espetáculo promovido por um numeroso bando de gaivotas em vôos rasantes e por um grupo de botos, que acompanhava a nossa embarcação durante uma boa parte do trajeto. Da amurada vejo as ondas a se quebrarem, desfazendo-se em branca espuma, na praia deserta distante. Numa ponta de areia vêem-se casas pequenas, de pescadores.
A Albatroz passa próximo à Ilha do Medo. A ilha é uma das menores da Baía de Todos os Santos e pertence ao município e estância hidromineral de Itaparica. Esta ilha encontra-se desabitada até hoje por não dispor de fonte de água doce. No século XIX ela abrigou instalações militares (um quartel) e um hospital para leprosos e partes das ruínas pode ser vistas no local. Atualmente, a Ilha do Medo é considerada uma Estação Ecológica.
Curiosidade:
Recoberta por um emaranhado de restinga e cercada por grandes manguezais retorcidos, a Ilha do Medo tem uma aparência aterrorizante. E lendas fantásticas e histórias verídicas se mesclam para justificar sua fama. Por causa de seu total isolamento, foi utilizada para exílio forçado de doentes de lepra no século XVII e como destino de doentes terminais de cólera na epidemia de 1855. Dezenas de vítimas, a maior parte escravos, foram enterradas em valas comuns na areia. Embora fique a menos de quatro quilômetros de Itaparica, nada nunca deu certo ali. Passada de mão em mão, ela teve todos os empreendimentos fracassados e seus proprietários terminarem falidos ou envolvidos em histórias trágicas.
Ninguém sabe exatamente quando o lugar começou a ser considerado maldito. Uma das lendas mais difundidas, porém, culpa um padre que teria se recusado a celebrar uma missa em Itaparica, mesmo tendo sido pago antecipadamente pelo serviço. Amaldiçoado pelos moradores, ele teria naufragado diante da ilha e se transformado num fantasma condenado a expiar sua heresia pela eternidade. Em certas noites, dizem que ele surge da bruma e convida os pescadores a assistir à missa que desgraçadamente não quis rezar em vida. (texto extraído da Internet)
Em menos de uma hora a Albatroz atracava no porto da Ilha de Itaparica. Parada obrigatória de 20 minutos, onde os passageiros aproveitavam para tomar o café da manhã reforçado com mingaus e cuscuz de tapioca, de milho ou de carimã (massa extraída da mandioca). Tudo muito corrido para não perder a lancha. Invariavelmente, havia gente que perdia a viagem e era forçada a pegar o navio João das Botas – pequeno navio da Cia. de Navegação Baiana – pagando caro pela imprevidência. Itaparica é a única estância hidromineral brasileira localizada a beira-mar. O centro da cidade ainda preserva um casario colonial, apesar das inúmeras construções modernas. As praias cercadas por recifes, permitem que sejam de águas calmas para um banho de mar tranqüilo.
A próxima parada é em Salvador. A Albatroz singra pelas águas da Baia de Todos os Santos e um pouco mais adiante avistamos a praia de Amoreiras, com sua vegetação rasteira e coqueiros beirando a orla, com água límpida e mar calmo, ótimo para banho. O dia está claro, de uma limpidez perfeita. O vento sopra com força, ondulando as águas da Baía, fazendo com que a lancha balançasse um pouco, levantando a proa, obrigando o piloto a navegar com destreza, cortando as ondas, não permitindo que elas atinjam as laterais da embarcação. À nossa frente avistamos alguns saveiros navegando em direção à Rampa do Mercado do Modelo, carregados de frutas, farinha de mandioca e objeto de cerâmica, trazidos das cidades do Recôncavo, principalmente de Nazaré das Farinhas.
Após 2 horas e meia de viagem chegamos finalmente a Salvador com muita disposição.

Vivaldo Lima de Magalhães. – Nascido em Salvador-Ba. 31/05/1937. Jornalista, formado pela Faculdade Nacional de Filosofia da UFRJ (ex-Universidade do Brasil) – 1967. Iniciou suas atividades jornalísticas no jornal estudantil MOVIMENTO, da União Nacional do Estudantes (UNE), 1963/1964. Trabalhou na A Tribuna da Imprensa – 1966/1967; Agência de Notícias Transpress – 1967/1968; repórter da revista A Cigarra – 1969/1971; Jornal do Brasil – 1976/1982. (Arquivista pesquisador), Técnico em Assuntos Educacionais da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro – 1965/1995 (aposentado). Colaborou na edição de jornais de instituições públicas e/ou privadas (“house-organs”) – 1986/1990. Atualmente faz parte da diretoria de uma entidade filantrópica, que presta assistência a pessoas portadoras de distrofia muscular – ACADIM – Associação Carioca dos Portadores de Distrofia Muscular, desde 1998