Salinas da Margarida: terra do sal

Salinas da Margarida teve sua história construída com a ascensão da décima maior empresa do Brasil no século XIX.
Foram as marinhas cheias de sal que deram grandiosidade ao quinto menor município da Bahia em faixa de terra. Mais do que o ouro branco extraído das águas da Baía de Todos os Santos, a Companhia Salinas da Margarida, que já foi a décima maior empresa do Brasil na virada dos séculos XIX e XX, levou um progresso prematuro para o município que ganharia o mesmo nome da firma. Com a derrocada da produção do mineral em meados da década de 1960, a localidade ficou órfã da vocação inicial para a nobreza. Os vestígios do fausto praticamente inexistem, apenas com o prédio desgastado do escritório da companhia e as ruínas da antiga casa do comendador Manoel de Souza Campos, o grande benemérito da evolução do local. Atualmente, são 11 mil habitantes dependentes de empregos escassos na máquina da prefeitura, pela ausência de empreendimentos capazes de absorver a mão-de-obra local. A pompa ficou apenas nas lembranças dos antigos trabalhadores do sal, herdeiros de uma nostalgia pelos tempos cristalinos.
Trilha mineral Salinas da Margarida viveu o apogeu durante a extração do sal, que deixou a prosperidade no passado
O cenário bucólico da pequena Salinas da Margarida remetem ao passado próspero do lugar
As ruas largas da pequena Salinas da Margarida parecem conduzir a um passado com vocação para a grandiosidade. São veredas faustas onde poderiam transitar até quatro veículos lado a lado, só recentemente separadas em pistas duplas por canteiros igualmente amplos. As ruas de Salinas, com seus calçamentos de pedras, dizem mais sobre a história de pujança e estagnação do que os escombros dos antigos armazéns, as ruínas das fábricas de sal.
Nas metáforas da Bíblia, a palavra sal tem mais de 30 referências diferentes. Nenhuma é capaz de traduzir tão bem apogeu e decadência como o sal que lavou a terra em Salinas da Margarida, um município do lado continental da Baía de Todos os Santos. As avenidas ficaram, o dinheiro pegou a maré junto com os últimos saveiros para transportar o mineral. Cortam a cidade trilhos que remetem ao passado, linhas de aço esmaecidas por pavimentação moderna, erodidas em sua função primordial de encurtar distâncias entre marinhas, galpões e porto, acelerando o tráfego da alva riqueza cristalina. Atualmente, a área total do município é de 148km2 e na época em que a vila tinha apenas um quinto desse terreno, 12km de trilhos ferroviários já haviam sido instalados.
Tudo graças à Companhia Salinas da Margarida, uma firma que durante pouco mais de 70 anos transformou o lugarejo em cidade aprazível, com as cifras de um negócio lucrativo. Entre o final do século XIX, quando foi oficialmente fundada, e os anos 20 do século seguinte, a companhia esteve entre as dez maiores empresas do país, sendo a principal produtora de sal da América do Sul. As linhas para o trenzinho de Salinas, hoje riscos da prosperidade pretérita, eram apenas uma indicação de que o progresso estaria por novos caminhos, associado à facilidade de escoamento da produção.
Ficaram os trilhos e a engenharia colonial, transformada em obras para girar dinheiro. Para ligar Margarida, Pernaaor e Salinópolis (as três principais marinhas), ainda existem vestígios da ponte de Nova Veneza, um equipamento de 60 metros de extensão, com capacidade para suportar a passagem de 15 toneladas em movimento. Seria o suficiente para agüentar uma das duas locomotivas importadas, cada uma com seis toneladas, puxando 96 vagões de ferro e 12 troleres para lenha e carvão. Tudo isso virou totem a um momento histórico de magnificência.
Na antiga ponte de trilhos, uma espécie de relíquia arquitetônica, a modernidade se impôs na forma da implantação de um posto da maricultura, onde uma bomba elétrica abastece os viveiros de camarão com a água que passa pelo córrego e pelo mangue. Apesar de tecnologicamente mais avançado, o processo de bombeamento é semelhante ao adotado nas antigas salinas, quando os trabalhadores deveriam liberar a passagem de água em um volume preciso: o nível “tá fumaçando”.
Expressões que fizeram parte do cotidiano de labuta braçal de gente como João da Cruz Almeida, que aos 73 anos é um dos muitos órfãos da derrocada do império do ouro branco. Do que ele lembra, na época certa, a água deveria sair do mar a uma temperatura de 6o Celsius para que pudesse ser eficientemente evaporada. Era passada para os algibés, que funcionavam como condensadores. No momento adequado, liberavam para a marinha. “O vento Nordeste fazia a pedra de sal crescer”, corrobora Joãozinho.
De manhã cedo, percebiam na superfície da água uma película esbranquiçada, semelhante a nata de leite. A cada novo vento, a nata salgada aumentava e fazia a pedra de sal ficar mais encorpada. “Avimaria, a gente puxava sal que chega ficava triste”. O dinheiro da salina, que ele entregava integralmente para a mãe, serviu para sustentar a família com mais três irmãos.
Sustentar uma família, hoje, é a salgada missão para os homens e mulheres que tiram o alimento do mar e do mangue, como alternativa única para uma carência de empregos. Ali, nas vizinhanças da antiga Ponte Nova Veneza, a Casa das Mariscadeiras e a Casa do Pescador Veneza são construções que servem como bastilha de seus recatados anseios. Entre esses dois imóveis, o prédio ainda imaginário do Memorial do Sal, que os administradores alegam não ter virado pedra e cimento ainda não por falta de vontade, mas por falta de dinheiro mesmo.
Realmente, a contabilidade do município não está para peixe. A principal receita provém do Fundo de Participação dos Municípios, o famigerado FPM, transferido pela União. E Salinas da Margarida está no penúltimo degrau do repasse, respondendo por um coeficiente de 0,8. Em números absolutos, esse cálculo significa que vão ser depositados nas contas do governo local pouco mais de R$250 mil por mês ao longo de 2006. Só com o pagamento dos 600 funcionários (se cada um ganhar um salário mínimo) a despesa fica em R$210 mil. Com uma conta dessas, aplicar na memória é supérfluo.
Números miúdos como esses do orçamento público são a realidade da atual Salinas da Margarida. Com 65 km2 de terra dentro de seus limites continentais, é o quinto menor município da Bahia. Fica a 69km de Salvador por travessia marítima e viagem rodoviária. Só que está a milhares de léguas da capital quando se leva em conta a amabilidade dos moradores e a forma quase folclórica com que os mais antigos se comunicam. Seu Domício Pinto, ex-funcionário da companhia, de 72 anos, é do tempo em que o bacalhau era comida para os pobres da região, que tem certeza ser hoje muito mais populosa do que nos bons tempos. “Hoje, tem três tantos de gente”, compara, usando uma aritmética própria. Atualmente, a população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de 11 mil habitantes, não tão superior ao período das melhores safras de até 5 mil toneladas por ano, quando o produto era agraciado com Medalha de Ouro na Exposição Nacional de 1908, pela qualidade.
A população ainda é a mesma que se divide na hora de indicar a qual margarida se refere o nome da cidade. A versão que ganhou mais respaldo popular tem a figura misteriosa de uma madame. Alguns garantem que era francesa e se chamava Margueritte. Outros, até mesmo as informações turísticas disponibilizadas pela prefeitura, registram uma importante senhora de nome Margarida, que seria dona da maior parte das terras posteriormente transformadas em salinas. As pesquisas do jornalista e escritor Almir de Oliveira, autor do único registro histórico sobre o local, não indicaram nenhuma evidência sobre sua origem, nascimento ou falecimento. Ele também esquadrinhou os 149 integrantes da Sociedade Anônima que formou a companhia, descobriu uma dezena de mulheres, mas nenhuma cujo nome se assemelhasse. É um mistério na história de Salinas, a cidade onde tudo remete a um império de sal.
Mangue da sobrevivência
População de Salinas da Margarida tira o sustento da venda de crustáceos
As marisqueiras madrugam para retirar do mar o sustento das famílias
A atividade de mariscar primeiro é uma luta particular contra a própria coluna cervical. Em suas posições curvas, as mulheres reverenciam a lama escura de onde brotam os pequenos víveres da subsistência. A cada dia, precisam cavar mais fundo e os anos têm sido lamento pela ausência de espécies antes abundantes. Em Salinas da Margarida, esse ofício insalubre é a principal fonte de receita para centenas de mães de família, jovens e senhoras abnegadas que passam até seis horas ininterruptas garimpando sobrevivência. Elas reclamam que o mangue está infértil e culpam a atual exploração da maricultura pelo desequilíbrio do ecossistema.
Às 5h30, Vanda Rodrigues de Souza já está suada, com o rosto e roupas enegrecidos pelo lodo fundamental de uma vida. São 65 anos de idade e mais de 50 debruçada sobre a superfície movediça do manguezal. Às 5h40, a paciente senhora percebe que vai ter que continuar o trabalho até o sol começar a sua inclemente baforada de calor. Só dali a três horas, dona Vanda terá conseguido catar 10kg de chumbinho, ou salabitinga, completando um saco do marisco, o máximo que consegue carregar nas costas. Depois de retirada da concha, a parte comestível do animal vai somar menos de 1kg.
As duas filhas de dona Vanda também participam do ofício comunitário, que reúne regularmente até cem mulheres madrugadoras, vestidas com bonés ou torsos improvisados, bermudas gastas, algumas empurrando bicicletas enferrujadas para servir como apoio das aniagens estufadas por chumbinhos e sururus. A aurora nas estradas de barro da antiga Salinópolis é um tráfego de senhoras de pele curtida e precocemente envelhecida, andando em grupos de duas ou três, conversando bastante, porque no momento da coleta do mangue vão se fechar em um concentrado silêncio de monge.
Café amargo
As mulheres aproveitam um café quente e de gosto amargo, acompanhado por pão com manteiga, oferecido na Casa das Mariscadeiras, enquanto os homens fazem o mesmo na Casa do Pescador Veneza. Alguns ainda pescam com a mais artesanal das ferramentas, a canoa de tronco com um remo, outros já aproveitaram um financiamento municipal para a compra da embarcação em fibra, colocando um motor para amenizar o serviço braçal. Essa evolução permite que Ivan Teixeira Dias, 38 anos, faça sozinho o serviço que seu pai só podia realizar em dupla. Ele avança veloz mar adentro para deixar as gaiolas em um ponto da costa que julgue farto em siris.
Três horas mais tarde, Ceridalva Souza dos Anjos, a Demi, volta do mangue com mais de 30kg de chumbinho no quadro de uma bicicleta sem selim, que ela conduz enquanto caminha. Ensina que para abrir é preciso colocar em banho-maria e depois catar para retirar a parte mole. Dali, ela pretende vender para uma intermediária que deve levar a mercadoria para Salvador.
Ivan também retorna do mar calculando que a rede que traz na canoa deve ter pelo menos 8kg de siri. Está feliz com o investimento que fez há dois anos, quando pagou R$4,8 mil por todo o equipamento e conseguiu quitar em prestações sem juros. O movimento coletivo de retorno parece sincronizado como o de uma colônia de formigas operárias que se locomovem na mesma direção e velocidade. Uma pequena construção da empresa Maricultura da Bahia, sobre onde era a ponte de Nova Veneza, vira entreposto das marisqueiras, que já voltaram ao estado natural de conversa. “Esse saco aí é o de Leda”. “O seu total tem 164kg”. “Só isso?”
Há muita expectativa sobre o volume de trabalho do dia, mas a balança eletrônica geralmente é implacável. Transforma em número o peso suportado pelas bicicletas oxidadas de maresia. O saco que Carminha trouxe com dificuldade tem 37kg e, com sorte, pode virar dois quilos de chumbinho puro. Ali, elas vendem o material bruto para a maricultura, ao preço de R$0,25 por quilo. Em um dia, a empresa chega a comprar 3,5 toneladas das marisqueiras, com o objetivo de alimentar os camarões. Para elas, muitas vezes, é mais rentável do que repassar o produto para os fregueses tradicionais, porque poupa o trabalho de comprar a lenha para ferver a água, cozinhar e catar o chumbinho.
Por isso que Demi, que iria passar sua produção para uma intermediária levar até Salvador, desistiu no meio do caminho e optou pelos R$8,75 oferecidos em troca dos 35kg de marisco. O dinheiro é pago semanalmente, a partir da soma que vai sendo feita de acordo com o rendimento diário medido na balança. Reginélia Sacramento de Jesus, uma das filhas de dona Vanda, conseguiu 212kg em dois dias de trabalho com o filho.
Ciclo da maricultura
A serviço da carcinicultura industrializada, as marisqueiras parecem ocupar a lacuna deixada com o fim dos trabalhos masculinos na antiga companhia salineira. Com a extinção das salinas, foi a vez da Pescon, empresa criada pela Companhia Química do Recôncavo, iniciar o ciclo da maricultura. Oficialmente, a licença foi concedida no final de 1981 para criação e exploração de camarões em cativeiro nas antigas marinhas desativadas. O sal tinha resistido até os anos 60 sob responsabilidade da companhia, que depois vendeu as terras para a Companhia Eletroquímica da Bahia e a CQR. Em 1996, a Pescon vendia o empreendimento para a Maricultura da Bahia SA, em uma negociação anunciada de R$1 milhão.
O cultivo do camarão foi incorporado pelo grupo Montagem de Projetos Especiais (MPE) em 2001, que produz cerca de 500 toneladas por mês nos viveiros de Valença e Salinas da Margarida. A produção é exportada principalmente para França, Espanha e Estados Unidos. Os viveiros de camarão são tanques com as larvas do crustáceo que lembram a arquitetura das marinhas do passado. Essa semelhança espacial motiva a melancolia dos antigos funcionários que se sentem usurpados em uma parte da própria vida.
Aos 82 anos, Grimaldo Antônio de Oliveira, ex-trabalhador da companhia, ex-vereador, tornou-se crítico do legado da maricultura nas antigas salinas onde trabalhou. Acha que ecologicamente os prejuízos são grandes e que a produção do camarão não gera divisas para o município. “Todos os impostos vão para Nazaré das Farinhas, onde o produto é processado”, condena, ignorando, no entanto, as vagas de empregos abertas em Salinas.
E geração de postos de trabalho parece ser o maior desafio no município prestes a completar 44 anos. Na chuvosa tarde de um feriado, o prefeito Francisco José Pereira de Santana está reunido com metade do secretariado para discutir soluções de como acompanhar o aumento do salário mínimo para R$350 sem quebrar a máquina pública. “A prefeitura é a maior empregadora da cidade. São 600 funcionários diretos”, calcula o político de 44 anos, com a familiaridade com a terra de quem é filho de pescador. Para uma cidade de 11 mil habitantes, percebe-se que pelo menos metade das famílias da localidade vão ser diretamente influenciadas pelo resultado da reunião.
Pólo de lazer
Para o secretário de Cultura e Turismo da cidade, esse gargalo de ocupação no município só vai ser alargado com o investimento capaz de transformar a localidade em pólo de lazer, esportes e entretenimento. “Podemos aproveitar nossa marina para fazer competições náuticas, torneios com veleiros, além de explorarmos mais a divulgação da beleza de nossa costa. Há também a chance de criarmos trilhas ecológicas para esportes radicais”, sugere Adilson Pinto. “Tudo isso vai ser revertido em empregos para nossa população”.
A instalação de três faculdades com cursos da área do magistério e pedagogia parecia ser um avanço, mas terminou apenas mudando o foco do problema da falta de especialização para a ausência de empregabilidade. “Se 150 pessoas se formarem em um ano, elas só tem um local pra buscar trabalho, que é a prefeitura”, pondera o soldado da Polícia Militar Marivaldo Silva Caetano, 34 anos, aluno do 4º semestre do curso normal superior da Faculdade de Ciências Educacionais (Face).
Líder de classe, Marivaldo foi um dos autores de um trabalho de pesquisa sobre a história do município, em que os colegas constataram a histórica redução de oportunidades em diversas áreas. “Não sabíamos que Salinas já teve, além da companhia salineira, fábricas de sabão, piaçava, azeite e beneficiamento de siri. Como educadores, nossa tarefa vai ser colocar esse conhecimento em sala de aula”, prevê ele, que pensa em conciliar o trabalho de policial com o de professor. “É como se fosse um paradoxo, porque o desenvolvimento chegou em parte. A gente só percebe que desenvolveu a educação, o que já é bom, porque é o começo de tudo”, sonha.
Com 11 filhos e 27 netos, seu Grimaldo é um grande patriarca do interesse público na cidade, opinante requisitado. Oráculo para as consultas populares relacionadas à história local, ele é uma espécie de guru mulato da sensatez, asceta da sabedoria provincial. “Aqui em Salinas, precisamos de fábricas, uma indústria de calçados, algo para que as pessoas não dependam apenas da prefeitura”, sugere, mascando as palavras junto com os pensamentos.
Benemérito do sal Comendador Manoel de Souza Campos deu a largada para o progresso da inóspita região Pablo Reis
A casa do visionário comendador Manoel de Souza Campos, responsável pela criação da companhia, permanece de pé
Quando nasceu, em 25 de dezembro de 1838, na Vila da Capela, em Sergipe, ninguém apostava que fosse sobreviver aos índices temerários de mortalidade infantil, quanto mais chegar a comendador. Filho de José do Egito Campos e Mariana Perpétua de Campos, um casal pobre, Manoel de Souza Campos mudou para Salvador aos 14 anos em busca de oportunidades na vida. Quando morreu, tinha montado um império baseado em austeridade empresarial e filantropia, cujo principal pilar era a Companhia Salinas da Margarida, empresa que se tornou uma das dez maiores do país no início do século passado e que provocou uma revolução na localidade que seria batizada com o mesmo nome.
Na capital baiana, começou trabalhando como caixeiro-viajante no escritório de Vicente do Amaral e progrediu ao ponto de montar o próprio armarinho na cidade baixa, em meados do século XIX. Aos 22 anos, em 22 de setembro de 1860, casou com Guilhermina Gomes Marelim, filha de um próspero comerciante. Com apoio do sogro, abriu uma loja de tecidos chamada Campos e Marelim e um escritório de consignações, Campos, Irmãos e Cia. Admirado como empresário pelo caráter e pela retidão, Manoel de Souza Campos foi admitido na Santa Casa de Misericórdia da Bahia em 1868 e ingressou na direção do Banco da Bahia em 1872. Chegou à presidência da instituição bancária em 1909.
Eleito provedor da Santa Casa em 1892, ganhou a comenda Ordem de Cristo por libertar os 19 escravos que possuía durante as discussões abolicionistas. Foi reeleito sucessivamente ao cargo mais alto da Santa Casa por 11 mandatos. Souza Campos também recebeu a Ordem da Rosa, grau de oficial, das mãos de dom Pedro II, durante sua passagem pela Bahia, em 1878.
Em uma das gestões na Santa Casa, o comendador conseguiu terminar a construção do Hospital Santa Izabel que ficara parada por 50 anos, sem recursos. A pedra fundamental fora lançada em 15 de junho de 1828, mas a inauguração só ocorreu em 1893. Membro da Associação Comercial da Bahia, sócio do IGHB, participou das mais importantes ordens da Igreja Católica.
Berço esplêndido
Nem todas essas realizações, entretanto, são comparáveis ao feito de um visionário que percebeu na inóspita faixa de terra da Baía de Todos os Santos o potencial geográfico e climático para concretizar um dos mais bem-sucedidos projetos empresariais dos séculos XIX e XX na Bahia. Para isso, Souza Campos precisou conhecer o virtuoso Horácio Urpia Júnior que, ao contrário dele, nascera em berço esplêndido.
Muitas vezes mencionado como o técnico por trás do espírito empreendedor do comendador Campos, Urpia Júnior foi mais audacioso do que um mero coadjuvante. Empresário, engenheiro e político, teve uma trajetória de destacado participante da sociedade soteropolitana, membro da fidalguia da província. Entre as realizações mais notáveis, chegou a presidir a Câmara Municipal de Salvador e também instalou a linha telegráfica terrestre desde Aracaju até o sul da Bahia, trabalho que durou três anos.
Horácio Urpia Júnior foi educado no padrão europeu. Nascido em Salvador, em 23 de agosto de 1842, morou os primeiros 7 anos de vida na cidade do Porto, em Portugal, com os pais Horácio Fortunato Urpias e a mãe Cândida Amélia Carvalho Borges. Voltou para o Brasil com 7 anos e aos 13 foi estudar na Alemanha. Com 18 anos, fixou residência no Rio de Janeiro e aos 23 resolveu morar em Salvador, em um latifúndio comprado pelo pai que se estendia da Graça até o Campo Santo. Exerceu carreira como corretor de produtos de exportação. Foi o introdutor da cultura sisaleira no estado, importando do México as primeiras mudas que plantou em Maragojipe.
Homem de conhecimentos ecléticos nos campos da agricultura até a engenharia, passando por contabilidade e comércio exterior, Urpia Júnior falava alemão, francês, inglês e italiano. Foi um dos fundadores da Escola Politécnica e da Faculdade de Direito, além do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e irmão da Santa Casa de Misericórdia.
Tataraneto de Urpia, o médico Mário César Lopes Pontes Câmara virou uma espécie de guardião da memória do ancestral. O conhecimento sobre os feitos dele só foram obtidos por documentos guardados nos baús de família e também pelas histórias contadas pelo avô Agnaldo Urpia Câmara, um dos netos de Horácio, nascido em 1909 e morto em 1993. “Ele recebia correspondências de dom Pedro II e do marechal Deodoro da Fonseca. A esposa tinha fotografias ao lado de Santos Dumont”, enaltece o médico sobre a importância social do tataravô. “Também era um abnegado, que instalou todo o cabeamento para os telégrafos de graça”, ressalta.
Dupla dinâmica
Esses dois homens de origens distintas se encontraram para uma sociedade entre o intelecto e o poder de realização. Depois de fazer uma viagem à cidade portuguesa de Aveiro, Souza Campos descobriu que a paisagem das salinas na costa lusitana era semelhante às suas terras até então inutilizadas para qualquer tipo de produção. Colocou na cabeça que poderia transformar os brejos de água salgada na margem do mar em marinhas para extração de sal. Contratou o técnico português José Soares e bancou a vinda dele para o Brasil. Em 1877, a dupla Souza Campos e Urpia conseguia o privilégio de explorar as salinas no método de evaporação natural. No ano de 1881, as primeiras salinas começaram a produzir.
A formalização de uma sociedade anônima só ocorreria dez anos mais tarde, com a aprovação dos estatutos da Companhia Salinas da Margarida, em 20 de março de 1891, reunindo cerca de 150 sócios entre os nomes mais prestigiados do empresariado baiano. Com capital de 2 mil contos de réis, dividido em 20 mil ações de 100 mil réis, tinha como sócios majoritários Souza Campos e Urpia Júnior, detentores de quantidade de ações equivalente a 500 contos de réis, referente às propriedades que eram deles.
Este império resiste até a década de 60 do século XX, antes de os direitos de exploração serem repassados para a Companhia Química do Recôncavo. Fundador e primeiro diretor-gerente da companhia, Horácio Urpia Júnior morreu em 3 de maio de 1916 em Salvador, antes de completar 74 anos de idade. Souza Campos morrera por falência dos rins em 13 de fevereiro de 1910. No dia seguinte, o Diário da Bahia dedicou uma página inteira para noticiar a morte do eminente empresário. O sucessor dele, Manoel de Souza Campos Filho, morreria em 22 de novembro de 1931. Só que mesmo depois da morte dos criadores e até extinta a empresa, sobreviveria a polêmica sobre a origem do nome aproveitado para o batismo da cidade, emancipada em 1962.
A polêmica do nome
Descobrir a origem do nome Salinas da Margarida é uma salgada missão. A comunidade tem explicações simples para a composição de dois substantivos que, juntos, formam uma graciosa nomenclatura. O salinas é de entendimento óbvio, o Margarida é que provoca controvérsias. Nas pesquisas que desmistificariam as explicações mais correntes, o jornalista e pesquisador Almir de Oliveira, autor do livro Salinas da Margarida: notícias históricas, encontrou as versões romântica e misteriosa para o nome. A primeira, adotada até mesmo pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), garante que seria uma homenagem dada pelo comendador Souza Campos a sua mulher, Margarida Campos. Só que nas buscas etimológicas, o jornalista e pesquisador terminou constatando que a esposa do benemérito do município se chamava Guilhermina, conforme determinou em um dos discursos pronunciados na principal cadeira da Santa Casa da Misericórdia. A outra versão corrente é da mulher misteriosa, que poderia ser a uma francesa Margueritte, ou uma senhora Margarida, antiga proprietária de terras.
Almir teve certeza de que ambas as versões seriam mitos quando obteve um documento de posse de terra emitido pela Igreja em 1858, que já chamava o local de Ponta da Margarida. Em seguida, descobriu que durante a batalha pela independência da Bahia, em 1823, já havia referências a Margarida como um estratégico local de deslocamento de tropas. Um relatório do vigário João Baptista dos Santos, designado pela Arquidiocese para fazer um levantamento das terras da região, no período de 1755 a 1757, identifica o local como Ponta da Margarida e que teria apenas um morador na época. Com a utilização militar, virou Ponto da Margarida.
A hipótese lançada por Almir, que ele mesmo faz questão de antecipar que não tem respaldo em nenhum documento (mas também não há nenhum registro para contradizê-lo) é de que o nome teria origem indígena. Ele se baseia na existência de Dourado, uma localidade que, vista de quem vem pelo mar, é vizinha e simétrica a Salinas da Margarida. Almir acredita que os índios tupinambás nomearam ambas simultaneamente. E que tinham praticamente a mesma imagem das duas regiões, totalmente acarpetadas pelas flores do abundante mal-me-quer. Na que fica à esquerda de quem chega pelo mar, adotaram a expressão que designava o efeito visual que percebiam: dourado. Na outra, optaram pelo nome da planta: margarida. Entre tanta suposição e boato, superstição e inferência, Almir de Oliveira tem a certeza da plasticidade auditiva do batismo. “Não existe nome mais bonito e romântico, sonoro e gracioso, original e poético quanto essa denominação eternamente misteriosa – Salinas da Margarida”, escreve Almir.
Hoje, novas flores amareladas cobrem a superfície fértil do município. Não são mais margaridas e ninguém sabe dizer ao certo o nome delas. Dizem que vieram com o mato, com a química das outras empresas que se sucederam na região. É a garantia de que a semente da incerteza vai permanecer no solo da suspeição por mais algumas décadas.

Pablo Reis